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    <title>Luisa Barreto</title>
    <link>https://luisabarreto.com/</link>
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    <pubDate>Thu, 07 May 2026 12:01:42 +0000</pubDate>
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      <title>O Rosto da Multidão: singularidade e diferença?</title>
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      <description>&lt;![CDATA[5.4.2021&#xA;&#xA;Se o &#34;direito a defender qualquer coisa que esteja e seja digna de perdurar&#34;, é o que temos em comum com a multidão seiscentista, qual o jus resistentiae que ainda detém? E de que forma poderíamos nos aproximar de uma definição um pouco mais precisa sobre quem são os indivíduos que compõe a multidão e de que forma atuam? Como e sobre o que conversam? &#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Em imagens da nossa memória recente (acesse), a multidão que carregou o Lula antes de ser preso, em 7 de Abril de 2018, e o levantou nos braços, e as manifestações &#34;contra corrupção&#34; e a favor do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, de 2015 a 2018, o que chama atenção são os rostos, os gestos e as roupas das pessoas. Há um enfrentamento de cores, na primeira, um vermelho dominante, na segunda, o verde-amarelo-CBF. Ambas as multidões apresentam euforia, gritos e choro, comuns a ambas as imagens, mas diferem bastante na quantidade de raiva e frustração que expelem.&#xA;&#xA;Por sua vez, a multidão de 2013 não tinha um rosto definido. Ali cabiam todas as bandeiras e não-bandeiras, e muita gente que mal sabia o que lá fazia. Motivados pela corrente enérgica de um evento de magnitude tal qual o carnaval, caminharam quilômetros n&#39;arrebatação. A classe média do centrão que pode sempre ser puxada - pra lá ou pra cá -, esteve presente, também levada pela corrente.&#xA;&#xA;A grande revolta de junho de 2013 foi o ápice da intersecção de lutas não hegemônicas, que cozinhavam ainda em fogo brando, e entravam lentamente em ressonância com as lutas globais. Foi o primeiro grande lampejo coletivo brasileiro do século XXI, de que o cansaço era compartilhado e de que qualquer vontade de mudança só tomaria força em conjunto. Os múltiplos cansaços, mesmo sem uma coordenação clara entre eles, puderam pela primeira vez se manifestar. As motivações para estar ali não tinham necessariamente, naquele momento, algo comum de onde partiram, nem um lugar comum para onde se punham em movimento - algo que foi sendo refinado depois, de forma contínua, em desdobramentos futuros.&#xA;&#xA;Havia um contexto de espoliação constante da classe trabalhadora - diretamente ligada ao primeiro convite à revolta -, tornado fratura exposta com a convocação para as manifestações que pediam redução das tarifas de transporte público, organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), e que se tornou fio condutor para outras revoltas que ali explodiam . &#xA;&#xA;E todas essas multidões são muito distintas daquela que tomou o ABC em 1979, nas paralisações das fábricas sob liderança de Lula. No filme inacabado, o ABC da greve, de Leon Hirszman , ouvia-se: &#34;trabalhador unido jamais será vencido!, trabalhador unido jamais será vencido!, trabalhador unido jamais será vencido!&#34;. Cantava-se o hino nacional como símbolo de um outro desejo de coesão social. As câmeras filmando tudo e uma alegria diferente da do carnaval e diferente do festejar raivoso por um impeachment bem sucedido ou por um governo caído. Algo mais próximo do lavar a alma. Em meio aos gritos de Lula, Lula, Lula!, um misto de autoconfiança fortalecida pelo juntar dos corpos no encontro com um grande líder que dava as coordenadas: &#xA;&#xA;&#34;Companheiros! Outra coisa [que tenho de dizer a vocês], é o seguinte: mesmo a gente estando cassado, mesmo a gente estando cassado, a diretoria vai assumir o comando desse movimento pra fazer o que nós vínhamos fazendo até quinta-feira. Não podemos deixar que muitas pessoas dêem orientação, porque o que a gente percebe é que começa a haver confusão na cabeça de cada um&#34; (21:31 - 22:30). &#xA;&#xA;O líder dá o comando. Ao final, alguém grita na multidão e pede para que se vá a igreja no dia seguinte, continuar o trabalho que o Lula pediu. Na Igreja Matriz de Santo André. Às sete horas. Como um altofalante, micro-líderes difundem a informação entre os demais.&#xA;&#xA;A mesma multidão que se juntava nos estádios mostrou sua faceta religiosa. De braços erguidos e com bíblias na mão, cantando o pai nosso que estais no céu, o sindicato e a igreja apareciam soberanos como os lugares de proteção e resistência do povo ao rolo compressor da generalização. Tanto através do trabalho abstrato como do voto - o sufrágio universal que consolidou a democracia niveladora e a vontade geral -, o povo podia contar apenas com alguns poucos lugares especiais de resistência e proteção.&#xA;&#xA;Mas falar em  multidão do abc como metáfora para muita gente reunida, nos leva a retomar o conceito de multidão e o confrontar com a ideia de multidão no senso comum. Não estou falando do que acontece quando as pessoas se reúnem em protesto. A multidão de revoltosos. A multidão no estádio de futebol, a multidão grevista. O operariado fordista se aproximava muito mais do que se entende por povo, definição que também não tem relação alguma com a ideia pejorativa de &#34;aquele povo&#34;, ou ainda de povinho.&#xA;&#xA;O campo de negociação entre os trabalhadores e as instâncias estatais e industriais estava ainda circunscrito às esferas de atuação possíveis, naquele contexto histórico, sendo o sindicato, a única entidade capaz de mediar os interesses dos trabalhadores. A idéia de multidão como conjunto de singularidades que age na diferença e não por semelhança (Virno), nos desloca de qualquer interpretação que se assemelhe a greve do ABC, na medida em que se afasta, critica ou ameaça o Estado. Nos coloca um desafio maior e mais ajustado ao século XXI, além de oferecer uma ferramenta mais acurada para pensarmos as relações sociais hoje. Além das nossas crises pessoais e familiares - parte indissociável do processo de desmoronamento dos sistemas de representação e dos lugares de proteção que ainda haviam em 1979. &#xA;&#xA;Embora ali, na greve do ABC, estivesse já latente, implantado, o embrião da decadência social, econômica, cultural e política que podemos ver hoje tão claramente, aquele conjunto de pessoas reunidas pouco se assemelha às multidões dos anos 2000. &#xA;&#xA;O ponto fundamental para compreender essa ruptura reside no conceito de singularidade - e de sua existência cada vez mais palpável. Trata-se de uma virada epistemológica e conceitual da forma como pensamos a nós mesmos e a sociedade - e de uma realidade observável (veremos à diante). &#xA;&#xA;Pensar em singularidade ao invés de sujeito não só nos traz uma abertura de sentido como estabelece uma linha divisória entre o capitalismo fordista, sustentado na produção de bens e o capitalismo pós-fordista, sustentado na financeirização, no descolamento entre produção e trabalho humano e na chegada ao primeiro plano das relações sociais e de produção - como meios de produção -, as faculdades linguísticas, comunicativas, administrativas, criativas e de gestão (o intelecto público, geral). Fatores que reduzem em larga escala o poder social e econômico do antigo proletariado. Voltarei a isso mais à frente.&#xA;&#xA;Mas para compreender o que se quer dizer com singularidade é preciso ter em mente as três dimensões que compõe a camada pré-individual - geral, indiferenciada e comum a todos nós -, que explicam a formação dos indivíduos na sua relação com os muitos. &#xA;&#xA;O pré-individual é em primeiro lugar o fundo biológico da espécie humana (órgãos sensoriais, percepção), é a língua (algo que age em nós antes de aprendermos a falar e depois como intelecto geral, relação inter e intrapsíquica) e, por fim, o pré-individual é o traço fundamental que marca as relações sociais e de produção (história, cooperação social). A percepção, fundo biológico sem personalidade ou consciência, marca da espécie; a língua, que é de todos e de ninguém, o que temos em comum; e o intelecto geral, exterioridade, produção coletiva, conjunto das relações sociais, o que produzimos em comum, são as ferramentas através das quais os indivíduos se constituem na multidão.&#xA;&#xA;Ou seja, o processo de individuação que nos torna indivíduos singulares é a passagem dessa camada de indiferenciação genérica pré-individual para algo particular, específico: o indivíduo singular. Este caldo que produz o indivíduo particular, embora conserve uma estabilidade que perdura no tempo - e que associamos com o sujeito constituído -, configura-se, no entanto, como um processo inacabado de individuação. Um processo evolutivo contínuo que mobiliza sempre e reiteradamente as três camadas que compõem o pré-individual.&#xA;&#xA;Em outras palavras, o processo de individuação da língua geral nos transforma em seres falantes-pensantes. E juntamente ao aparato cognitivo humano e à história, que também nos excede - língua, percepção e história - são o uno da multidão. Segundo Virno, a partitura da multidão, aquilo em que ela se baseia para agir. Uma premissa, não uma promessa. Algo de onde se parte e não de onde se quer chegar. Em outras palavras, a multidão tem às suas costas uma partitura composta desses elementos comuns e o sistema pós-fordista se desenvolve a partir destes fatores, mobilizando e capturando essas forças, como fica mais claro se pensarmos nas redes sociais virtuais. &#xA;&#xA;O período social que tinha o povo como norma e ponto de partida para a política e para a formação do Estado não se construiu tendo como base esta partitura de que fala Virno. Esta partitura como premissa, como uno, pois esses fatores não haviam ainda se tornado meios de produção, na forma como se tornaram a partir dos anos 1970. De modo que o povo só podia esperar - para fora de si e através da intermediação dos lugares especiais e dos sistemas de representação de que dispunha -, a solução de seus problemas, localizados sempre no Estado. &#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Para chegarmos mais perto do meio, de uma aproximação entre a multidão de Gabriel Tarde e de Paolo Virno, dois autores que apresentam versões bastante antagônicas sobre os significados de multidão, busco encontrar a força agregadora e produtiva da multidão. Assim como o seu lado destrutivo - talvez o mais forte. Mas se sua potência anda latente, quanto tempo leva para que possa explodir de novo?&#xA;&#xA;Para Gabriel Tarde, a multidão era um grupo social do passado, o mais antigo deles. Antecedeu a família. Seus laços de união eram feitos por semelhança étnica e suas diferenças, neutralizadas. A multidão, para ele, seria uma forma de associação pela semelhança e não pela diferença. Costuma se unir por uma fé ou objetivo comum, e os seus sentimentos se reforçam quando está aglomerada - em comparação ao sentimento do indivíduo isolado, leitor de um livro ou jornal, participante de um público que existe mais virtual do que fisicamente e raramente vai à rua se manifestar.&#xA;&#xA;Em sua análise, as multidões se dividem em passivas (expectantes, atentas) e ativas (manifestantes, atuantes), com uma zona intermediária entre uma e outra - as multidões manifestantes. O seu humor e excitação varia conforme o potencial de contaminação de suas emoções e sentimentos. As multidões expectantes, que esperam pacientes ou impacientes o erguer-se das cortinas dos teatros e as atentas, cuja atenção a um espetáculo, aula ou discurso pode ralentar quanto mais numerosa for, são bastante infeciosas quando resolvem criticar, louvar ou cancelar algum ídolo. &#xA;&#xA;Todas elas parecem irromper do acaso, sempre desorganizadas. As multidões ativas, flagelantes, suplicantes, processionais, miseráveis e esfomeadas. Grevistas. Revolucionárias, esbravejantes, rurais - as mais difíceis de se porem em movimento, mas perigosas quando o fazem. Religiosas e manifestantes no espaço urbano (as mais apaixonadas e furiosas); econômicas e industriais (como as rurais) e estéticas (como as religiosas). Haveria também uma multidão de soldados (militar) e de milicianos (bandidos). &#xA;&#xA;As multidões ativas seriam mais destruidoras do que construtoras e são coloridas de amor ou ódio:&#xA;&#xA;  Não se sabe o que há de mais desastroso, ódios ou amores, execrações ou entusiasmos da multidão. Quando vocifera, tomada de um delírio canibal, ela é horrível, não resta dúvida; mas, quando se arroja, adoradora, aos pés de um de seus ídolos humanos, desatrela sua carruagem, ergue-o em triunfo nos ombros, na maioria das vezes é um semilouco como Masaniello, um animal feroz como Marat, um general charlatanesco como Boulanger, que é o objeto de sua adoração, mãe das ditaduras e das tiranias&#xA;&#xA;  Gabriel Tarde&#xA;A Opinião e as Massas, pg.42&#xA;&#xA;Por outro lado, multidões de amor, frutíferas, seriam as carnavalescas, as multidões de festa, efêmera, sua curta erupção é o solvente mais eficaz contra desavenças, assim como as de luto, que põem as pessoas a sofrer em união.&#xA;&#xA;Por que ela se une pela semelhança e não pela diferença, o seu movimento é centrípeto, seu destino é encontrar a unidade, ela é a promessa de que seus objetivos serão garantidos, representados.&#xA;&#xA;Para Paolo Virno, a multidão é a categoria que mais se ajusta a qualquer definição que se queira fazer hoje sobre esfera pública contemporânea. Ela é pluralidade, conjunto de singularidades que age na vida pública, na ação coletiva em um movimento centrífugo, ela é ativa no desmoronamento das instituições políticas e de suas formas de representação. Ela é antiestatal e antipopular, no sentido de contra a morosidade do povo. Do uno para o muitos, suas ações partem de uma premissa, não de uma promessa. E a sua premissa, que é a sua unidade, tem como base interesses comuns - e interseccionais, acrescento. Ela não exatamente combate o uno do povo, mas o redetermina.&#xA;&#xA;No entanto, mesmo alertando para os riscos de o intelecto público não se converter em uma esfera pública ocupada dos assuntos comuns, a multidão virniana teria voltado a se manifestar numa coloração predominante de esquerda - é o que parece ao lê-lo. Ocupada da defesa do jus resistentiae_ daqueles que sempre foram privados de participação na esfera pública. No Brasil de 2013, na Primavera Árabe, no Occupy Wall Street, no 15-M. &#xA;&#xA;Sua outra face, no Brasil vem pra rua contra a corrupção, nos aglomerados de QAnon, nos foda-se a vida!, esta também pode ser lida sobre o prisma da multidão, embora neste caso como uma força centrífuga bastante ancorada na neutralização das diferenças - mesmo isto sendo um paradoxo. &#xA;&#xA;A sua adoração ao líder parece uma relação de povo com seu soberano, o que lhe configura uma característica mais homogênea e totalitária; cega, por vezes obcecada e bruta. Mas a forma como ela age, de fato - e principalmente quando deseja a militarização da sociedade -, promove e sustenta um estado contínuo de caos e de exceção. Impulsionada, de certo, por seu líder eleito, mas em muitos sentidos independente dele, o outro lado da multidão defende algo que considera ser digno de perdurar: a defesa de uma ideia distorcida de liberdade, que parece ser a sua premissa. Isto é uma hipótese. &#xA;&#xA;Continua...&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA; Em entrevista à Revista do Instituto Humanitas Unisinos, Jean Tible  discorre de forma mais aprofundada sobre o assunto: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/580284-a-esquerda-dividida-por-junho-de-2013-e-a-impossibilidade-de-construir-novas-conexoes-entrevista-especial-com-jean-tible&#xA;&#xA; http://armazemmemoria.com.br/abc-da-greve-leon-hirszman-1990-documentario/]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>5.4.2021</p>

<p>Se o “direito a defender qualquer coisa que esteja e seja digna de perdurar”, é o que temos em comum com a multidão seiscentista, qual o <em>jus resistentiae</em> que ainda detém? E de que forma poderíamos nos aproximar de uma definição um pouco mais precisa sobre quem são os indivíduos que compõe a multidão e de que forma atuam? Como e sobre o que conversam?</p>



<p>Em imagens da nossa memória recente (acesse), a multidão que carregou o Lula antes de ser preso, em 7 de Abril de 2018, e o levantou nos braços, e as manifestações “contra corrupção” e a favor do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, de 2015 a 2018, o que chama atenção são os rostos, os gestos e as roupas das pessoas. Há um enfrentamento de cores, na primeira, um vermelho dominante, na segunda, o verde-amarelo-CBF. Ambas as multidões apresentam euforia, gritos e choro, comuns a ambas as imagens, mas diferem bastante na quantidade de raiva e frustração que expelem.</p>

<p>Por sua vez, a multidão de 2013 não tinha um rosto definido. Ali cabiam todas as bandeiras e não-bandeiras, e muita gente que mal sabia o que lá fazia. Motivados pela corrente enérgica de um evento de magnitude tal qual o carnaval, caminharam quilômetros n&#39;arrebatação. A classe média do centrão que pode sempre ser puxada – pra lá ou pra cá –, esteve presente, também levada pela corrente.</p>

<p>A grande revolta de junho de 2013 foi o ápice da intersecção de lutas não hegemônicas, que cozinhavam ainda em fogo brando, e entravam lentamente em ressonância com as lutas globais. Foi o primeiro grande lampejo coletivo brasileiro do século XXI, de que o cansaço era compartilhado e de que qualquer vontade de mudança só tomaria força em conjunto. Os múltiplos cansaços, mesmo sem uma coordenação clara entre eles, puderam pela primeira vez se manifestar. As motivações para estar ali não tinham necessariamente, naquele momento, algo comum de onde partiram, nem um lugar comum para onde se punham em movimento – algo que foi sendo refinado depois, de forma contínua, em desdobramentos futuros.</p>

<p>Havia um contexto de espoliação constante da classe trabalhadora – diretamente ligada ao primeiro convite à revolta –, tornado fratura exposta com a convocação para as manifestações que pediam redução das tarifas de transporte público, organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), e que se tornou fio condutor para outras revoltas que ali explodiam [^1].</p>

<p>E todas essas multidões são muito distintas daquela que tomou o ABC em 1979, nas paralisações das fábricas sob liderança de Lula. No filme inacabado, o <em>ABC da greve</em>, de Leon Hirszman [^2], ouvia-se: “trabalhador unido jamais será vencido!, trabalhador unido jamais será vencido!, trabalhador unido jamais será vencido!”. Cantava-se o hino nacional como símbolo de um outro desejo de coesão social. As câmeras filmando tudo e uma alegria diferente da do carnaval e diferente do festejar raivoso por um impeachment bem sucedido ou por um governo caído. Algo mais próximo do lavar a alma. Em meio aos gritos de <em>Lula, Lula, Lula!,</em> um misto de autoconfiança fortalecida pelo juntar dos corpos no encontro com um grande líder que dava as coordenadas:</p>

<p>“Companheiros! Outra coisa [que tenho de dizer a vocês], é o seguinte: mesmo a gente estando cassado, mesmo a gente estando cassado, a diretoria vai assumir o comando desse movimento pra fazer o que nós vínhamos fazendo até quinta-feira. Não podemos deixar que muitas pessoas dêem orientação, porque o que a gente percebe é que começa a haver confusão na cabeça de cada um” (21:31 – 22:30).</p>

<p>O líder dá o comando. Ao final, alguém grita na multidão e pede para que se vá a igreja no dia seguinte, continuar o trabalho que o Lula pediu. Na Igreja Matriz de Santo André. Às sete horas. Como um altofalante, micro-líderes difundem a informação entre os demais.</p>

<p>A mesma multidão que se juntava nos estádios mostrou sua faceta religiosa. De braços erguidos e com bíblias na mão, cantando o pai nosso que estais no céu, o sindicato e a igreja apareciam soberanos como os lugares de proteção e resistência do povo ao rolo compressor da generalização. Tanto através do trabalho abstrato como do voto – o sufrágio universal que consolidou a democracia niveladora e a vontade geral –, o povo podia contar apenas com alguns poucos <em>lugares especiais</em> de resistência e proteção.</p>

<p>Mas falar em  <em>multidão do abc</em> como metáfora para muita gente reunida, nos leva a retomar o conceito de multidão e o confrontar com a ideia de multidão no senso comum. Não estou falando do que acontece quando as pessoas se reúnem em protesto. A multidão de revoltosos. A multidão no estádio de futebol, a multidão grevista. O operariado fordista se aproximava muito mais do que se entende por povo, definição que também não tem relação alguma com a ideia pejorativa de “aquele povo”, ou ainda de <em>povinho</em>.</p>

<p>O campo de negociação entre os trabalhadores e as instâncias estatais e industriais estava ainda circunscrito às esferas de atuação possíveis, naquele contexto histórico, sendo o sindicato, a única entidade capaz de mediar os interesses dos trabalhadores. A idéia de <em>multidão como conjunto de singularidades que age na diferença e não por semelhança</em> (Virno), nos desloca de qualquer interpretação que se assemelhe a greve do ABC, na medida em que se afasta, critica ou ameaça o Estado. Nos coloca um desafio maior e mais ajustado ao século XXI, além de oferecer uma ferramenta mais acurada para pensarmos as relações sociais hoje. Além das nossas crises pessoais e familiares – parte indissociável do processo de desmoronamento dos sistemas de representação e dos lugares de proteção que ainda haviam em 1979.</p>

<p>Embora ali, na greve do ABC, estivesse já latente, implantado, o embrião da decadência social, econômica, cultural e política que podemos ver hoje tão claramente, aquele conjunto de pessoas reunidas pouco se assemelha às multidões dos anos 2000.</p>

<p>O ponto fundamental para compreender essa ruptura reside no conceito de singularidade – e de sua existência cada vez mais palpável. Trata-se de uma virada epistemológica e conceitual da forma como pensamos a nós mesmos e a sociedade – e de uma realidade observável (veremos à diante).</p>

<p>Pensar em singularidade ao invés de <em>sujeito</em> não só nos traz uma abertura de sentido como estabelece uma linha divisória entre o capitalismo fordista, sustentado na produção de bens e o capitalismo pós-fordista, sustentado na financeirização, no descolamento entre produção e trabalho humano e na chegada ao primeiro plano das relações sociais e de produção – como meios de produção –, as faculdades linguísticas, comunicativas, administrativas, criativas e de gestão (o intelecto público, geral). Fatores que reduzem em larga escala o poder social e econômico do antigo proletariado. Voltarei a isso mais à frente.</p>

<p>Mas para compreender o que se quer dizer com singularidade é preciso ter em mente as três dimensões que compõe a camada <em>pré-individual</em> – geral, indiferenciada e comum a todos nós –, que explicam a formação dos indivíduos na sua relação com os muitos.</p>

<p>O pré-individual é em primeiro lugar o fundo biológico da espécie humana (órgãos sensoriais, percepção), é a língua (algo que age em nós antes de aprendermos a falar e depois como <em>intelecto geral</em>, relação inter e intrapsíquica) e, por fim, o pré-individual é o traço fundamental que marca as relações sociais e de produção (história, cooperação social). A percepção, fundo biológico sem personalidade ou consciência, marca da espécie; a língua, que é de todos e de ninguém, o que temos em comum; e o intelecto geral, exterioridade, produção coletiva, conjunto das relações sociais, o que produzimos em comum, são as ferramentas através das quais os indivíduos se constituem na multidão.</p>

<p>Ou seja, o processo de individuação que nos torna indivíduos singulares é a passagem dessa camada de indiferenciação genérica pré-individual para algo particular, específico: o indivíduo singular. Este caldo que produz o indivíduo particular, embora conserve uma estabilidade que perdura no tempo – e que associamos com o <em>sujeito</em> constituído –, configura-se, no entanto, como um processo inacabado de individuação. Um processo evolutivo contínuo que mobiliza sempre e reiteradamente as três camadas que compõem o _pré-individual.</p>

<p>Em outras palavras, o processo de individuação da língua geral nos transforma em seres falantes-pensantes. E juntamente ao aparato cognitivo humano e à história, que também nos excede – língua, percepção e história – são o <em>uno</em> da multidão. Segundo Virno, a partitura da multidão, aquilo em que ela se baseia para agir. Uma premissa, não uma promessa. Algo de onde se parte e não de onde se quer chegar. Em outras palavras, a multidão tem às suas costas uma partitura composta desses elementos comuns e o sistema pós-fordista se desenvolve a partir destes fatores, mobilizando e capturando essas forças, como fica mais claro se pensarmos nas redes sociais virtuais.</p>

<p>O período social que tinha o povo como norma e ponto de partida para a política e para a formação do Estado não se construiu tendo como base esta partitura de que fala Virno. Esta partitura como premissa, como uno, pois esses fatores não haviam ainda se tornado meios de produção, na forma como se tornaram a partir dos anos 1970. De modo que o povo só podia esperar – para fora de si e através da intermediação dos lugares especiais e dos sistemas de representação de que dispunha –, a solução de seus problemas, localizados sempre no Estado.</p>

<hr/>

<p>Para chegarmos mais perto do meio, de uma aproximação entre a multidão de Gabriel Tarde e de Paolo Virno, dois autores que apresentam versões bastante antagônicas sobre os significados de <em>multidão</em>, busco encontrar a força agregadora e produtiva da multidão. Assim como o seu lado destrutivo – talvez o mais forte. Mas se sua potência anda latente, quanto tempo leva para que possa explodir de novo?</p>

<p>Para Gabriel Tarde, a multidão era um grupo social do passado, o mais antigo deles. Antecedeu a família. Seus laços de união eram feitos por semelhança étnica e suas diferenças, neutralizadas. A multidão, para ele, seria uma <em>forma de associação pela semelhança e não pela diferença</em>. Costuma se unir por uma fé ou objetivo comum, e os seus sentimentos se reforçam quando está aglomerada – em comparação ao sentimento do indivíduo isolado, leitor de um livro ou jornal, participante de um público que existe mais virtual do que fisicamente e raramente vai à rua se manifestar.</p>

<p>Em sua análise, as multidões se dividem em passivas (expectantes, atentas) e ativas (manifestantes, atuantes), com uma zona intermediária entre uma e outra – as multidões manifestantes. O seu humor e excitação varia conforme o potencial de contaminação de suas emoções e sentimentos. As multidões expectantes, que esperam pacientes ou impacientes o erguer-se das cortinas dos teatros e as atentas, cuja atenção a um espetáculo, aula ou discurso pode ralentar quanto mais numerosa for, são bastante infeciosas quando resolvem criticar, louvar ou cancelar algum ídolo.</p>

<p>Todas elas parecem irromper do acaso, sempre desorganizadas. As multidões ativas, flagelantes, suplicantes, processionais, miseráveis e esfomeadas. Grevistas. Revolucionárias, esbravejantes, rurais – as mais difíceis de se porem em movimento, mas perigosas quando o fazem. Religiosas e manifestantes no espaço urbano (as mais apaixonadas e furiosas); econômicas e industriais (como as rurais) e estéticas (como as religiosas). Haveria também uma multidão de soldados (militar) e de milicianos (bandidos).</p>

<p>As multidões ativas seriam mais destruidoras do que construtoras e são coloridas de amor ou ódio:</p>

<blockquote><p>Não se sabe o que há de mais desastroso, ódios ou amores, execrações ou entusiasmos da multidão. Quando vocifera, tomada de um delírio canibal, ela é horrível, não resta dúvida; mas, quando se arroja, adoradora, aos pés de um de seus ídolos humanos, desatrela sua carruagem, ergue-o em triunfo nos ombros, na maioria das vezes é um semilouco como Masaniello, um animal feroz como Marat, um general charlatanesco como Boulanger, que é o objeto de sua adoração, mãe das ditaduras e das tiranias</p>

<p>Gabriel Tarde
A Opinião e as Massas, pg.42</p></blockquote>

<p>Por outro lado, multidões de amor, frutíferas, seriam as carnavalescas, as multidões de festa, efêmera, sua curta erupção é o solvente mais eficaz contra desavenças, assim como as de luto, que põem as pessoas a sofrer em união.</p>

<p>Por que ela se une pela semelhança e não pela diferença, o seu movimento é centrípeto, seu destino é encontrar a unidade, ela é a promessa de que seus objetivos serão garantidos, representados.</p>

<p>Para Paolo Virno, a multidão é a categoria que mais se ajusta a qualquer definição que se queira fazer hoje sobre esfera pública contemporânea. Ela é pluralidade, conjunto de singularidades que age na vida pública, na ação coletiva em um movimento centrífugo, ela é ativa no desmoronamento das instituições políticas e de suas formas de representação. Ela é antiestatal e antipopular, no sentido de contra a morosidade do povo. Do uno para o muitos, suas ações partem de uma premissa, não de uma promessa. E a sua premissa, que é a sua unidade, tem como base interesses comuns – e interseccionais, acrescento. Ela não exatamente combate o uno do povo, mas o redetermina.</p>

<p>No entanto, mesmo alertando para os riscos de o intelecto público não se converter em uma esfera pública ocupada dos assuntos comuns, a multidão virniana teria voltado a se manifestar numa coloração predominante de esquerda – é o que parece ao lê-lo. Ocupada da defesa do <em>jus resistentiae</em> daqueles que sempre foram privados de participação na esfera pública. No Brasil de 2013, na Primavera Árabe, no Occupy Wall Street, no 15-M.</p>

<p>Sua outra face, no Brasil vem pra rua contra a corrupção, nos aglomerados de QAnon, nos foda-se a vida!, esta também pode ser lida sobre o prisma da multidão, embora neste caso como uma força centrífuga bastante ancorada na neutralização das diferenças – mesmo isto sendo um paradoxo.</p>

<p>A sua adoração ao líder parece uma relação de povo com seu soberano, o que lhe configura uma característica mais homogênea e totalitária; cega, por vezes obcecada e bruta. Mas a forma como ela age, de fato – e principalmente quando deseja a militarização da sociedade –, promove e sustenta um estado contínuo de caos e de exceção. Impulsionada, de certo, por seu líder eleito, mas em muitos sentidos independente dele, o outro lado da multidão defende algo que considera ser digno de perdurar: a defesa de uma ideia distorcida de liberdade, que parece ser a sua premissa. Isto é uma hipótese.</p>

<p>Continua...</p>

<hr/>

<p>[^1] Em entrevista à Revista do Instituto Humanitas Unisinos, Jean Tible  discorre de forma mais aprofundada sobre o assunto: <a href="http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/580284-a-esquerda-dividida-por-junho-de-2013-e-a-impossibilidade-de-construir-novas-conexoes-entrevista-especial-com-jean-tible">http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/580284-a-esquerda-dividida-por-junho-de-2013-e-a-impossibilidade-de-construir-novas-conexoes-entrevista-especial-com-jean-tible</a></p>

<p>[^2] <a href="http://armazemmemoria.com.br/abc-da-greve-leon-hirszman-1990-documentario/">http://armazemmemoria.com.br/abc-da-greve-leon-hirszman-1990-documentario/</a></p>
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      <guid>https://luisabarreto.com/o-rosto-da-multidao-singularidade-e-diferenca</guid>
      <pubDate>Sat, 03 Apr 2021 21:56:21 +0000</pubDate>
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      <title>Multidão 2021</title>
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      <description>&lt;![CDATA[21.3.2021&#xA;&#xA;  Mas, evidentemente, não pude pretender, em algumas páginas, traçar o perfil de uma ciência assim [a ciência da conversação comparada]. Na falta de informações suficientes para até mesmo esboçá-la, só pude indicar seu futuro lugar, e ficaria contente se, tendo conseguido fazer sua ausência lamentável, eu sugerisse a algum jovem trabalhador o desejo de preencher essa grande lacuna.&#xA;&#xA;  Gabriel Tarde&#xA;A Opinião e as Massas, pg.3 &#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;As multidões recentes que tomaram as ruas nos Estados Unidos antes da eleição de Joe Biden, no Brasil de 2013 e no Brasil de agora, na Primavera Árabe, no Occupy Wall Street, no Haiti, nos aglomerados de QAnon, dos contra vacina, dos foda-se a vida, ao observá-las, eu procurava encontrar algo em comum e ao compará-las, identificar aquelas cuja ação resultaram em alguma mudança significativa, seja ela subjetiva, política ou rebordosa. E aquelas que mal deixaram rastro, saíram de cena. Paralelamente, observava a popularização de termos acadêmicos sendo usados como o último suspiro da palavra resistência. Micropolítica dos afetos no Big Brother Brasil. Teorias requentadas e tentativas renovadas de esclarecimento de que mundo é esse, que gente é essa? Brotam voltadas para si. Enquanto a guerra autoimune no ocidente expõe os ossos de uma sociedade emocionalmente frágil, uma sociedade sem adultos. A classe média evanescente tranquilizada com remédio psiquiátrico assiste os psicopatas no poder em todo lugar, e frustra o breque dos apps. pausa. Qual foi o encontro multitudinário que produziu mudanças reais no discurso e nas políticas econômicas? Permitam-me deixar por uns instantes a subjetividade de lado. Aceitei o desafio de Gabriel Tarde, lançado em Maio de 1901 de esboçar o que viria a ser uma ciência da conversação comparada. Com nenhuma pretensão de fazer ciência e mais como esforço de entender a força desagregadora da multidão, sobre o que falam os muitos, o que pensam, e como se contagiam mutuamente.&#xA;&#xA;A Gramática da Multidão: anos 2000&#xA;&#xA;Semelhante convocação fez Paolo Virno, em 2001, nos seminários que deu na Universidade da Calábria, onde era docente. Filósofo e semiólogo, foi preso em 1978, acusado de fazer parte das Brigate Rosse (Brigadas Vermelhas), organização paramilitar de guerrilha comunista na Itália e de outros movimentos de esquerda como Autonomia Operaia, dos quais Antonio Negri também fazia parte. No livro Gramática da Multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas , Virno também incentivou filósofos e sociólogos a pesquisar a multidão, termo que se tornou mais conhecido com o lançamento, em 2004, do livro Multidão: guerra e democracia na era do império, escrito por Antonio Negri e Michael Hardt.&#xA;&#xA;Multidão, no senso comum interpretado como sinônimo de massa ou de povo, fez aparição em momentos específicos do pensamento político da modernidade, em Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes e Baruch Espinoza, num arco temporal que abrange os séculos XV e XVII. No início dos anos 2000, o conceito de multidão foi resgatado e dali em diante passou a ser associado às teorias da pós-modernidade, do pós-fordismo e do capitalismo cognitivo. Há controvérsias sobre as origens da pós-modernidade, mas o pós-fordismo parece já mais consolidado, numa percepção mais ou menos academicamente fundamentada de que a sociedade industrial está em vertiginosa transformação desde a década de 1970. Não só em transformação, mas nos momentos finais do seu colapso, assim como a democracia esfacelada, esse fantasma, que cada vez mais acredita-se nem sequer ter um dia existido.&#xA;&#xA;Embora reconhecesse o que chamou de o caráter ambivalente da multidão, diferente de Gabriel Tarde, Paolo Virno enxergou neste conceito algo mais prenhe de potencial transformador, mais como variante social alternativa. Em relação ao conceito hobbesiano de povo - o povo dominado, subjugado pelo poder do Estado -, a multidão foi vista com voto de confiança, não como esse &#34;grupo amorfo&#34;, de que falou Tarde, &#34;incapaz, sob todas as suas formas, de pé ou sentada, imóvel ou em marcha, de estender-se além de um pequeno raio&#34; e que desaparece &#34;quando seus líderes cessam de tê-la in manu, quando ela deixa de ouvir a voz deles&#34; (ver pg.13)&#xA;&#xA;Virno, parecia acreditar (gostaria de saber o que ele pensa hoje) que a mera capacidade de pensar e de se comunicar fora dos lugares especiais de fala - o partido, a igreja -, trazendo ao primeiro plano os lugares de fala comuns, a partilha do pensamento, a vida da mente exposta e pública de forma muito natural e corriqueira, seria capaz de originar „uma esfera pública inédita, uma esfera pública não-Estatal, longe dos mitos e dos ritos da soberania“ (ver pg.17). &#xA;&#xA;[Aviso de não confundir mente exposta, intelecto público ou intelecto geral, termos utilizados no livro - tomemos como exemplo a comunicação em redes sociais virtuais -, com o conceito de esfera pública. Um passo a frente seria interrogar também o que pode uma esfera pública? Voltarei a isso mais tarde].&#xA;&#xA;Tenho a impressão de que ele não tinha tanto em mente a multidão cibernética e ainda não podia observar, na época em que pensava uma gramática da multidão - por uma questão mais de desenvolvimento tecnológico do que geracional -, sobre o que ela fala e como age. Pelo que de fato ela se interessa. Fake News, guerra híbrida, com certeza não existiam em seu espectro de análise, assim como parece ter dado pouca bola para a relação entre multidão e fascismo. &#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Nos meus anos de doutorado, o livro Gramática da Multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas me impressionou muito e até hoje me serve como uma grande bússola. E releio alguns trechos em busca de algo perdido. Mas por mais precisa que seja uma bússola em mostrar a direção a seguir, é preciso uma boa dose de intuição para se orientar. Mas quando você precisa a todo instante se reorientar, a bússola já não te serve tanto, você até toma algum caminho, mas parece sempre se encontrar no mesmo ponto. O que te resta é, portanto, só a intuição. &#xA;&#xA;O que eu buscava e busco neste livro foi um elo entre teoria e prática, que nunca encontrei de fato. Ficou como uma ilusão de que seria possível para fora dos livros finalmente conectar teoria e prática, no mundo. E tendo a multidão como o grande agente da transformação - não a massa, não o povo. Mas, minto. Não é bem assim que nunca encontrei tal relação de modo palpável e visível. Tenho visto cada vez mais exemplos surgirem disto, que seria uma possível conexão, mas de uma maneira totalmente outra e muito semelhante ao que a vida no neoliberalismo nos apresenta, principalmente para os filhos dos anos 1980. Você faz um ou mais planos que seguem completamente outros, não se parecem em nada com o que foi planejado. Como se uma coisa não tivesse a ver com a outra: „planejo, portanto vai acontecer“, ou ainda: „estudei, logo terei um bom trabalho“. E todos os aspectos da vida a depender de um sistema de créditos sociais, o qual você deveria estar investindo desde que nasceu. Uma variação da teoria do capital humano.&#xA;&#xA;É uma força que vem de fora, apertando uma outra que vem de dentro tentando se manifestar, enquanto uma outra que vem de cima e dos lados desvia o movimento de sair. Mas como aquilo que entra, sai, em algum momento sai enviesado, misturado. Já não é mais a sua energia interna, os seus desejos, somente, mas a contaminação dela com as outras forças, o fora com o dentro. Um movimento de adaptação inevitável.&#xA;&#xA;Por um movimento semelhante, o elo teoria-prática retornou num outro conceito que falava da realidade através dos livros e a criticava. O homen pós-moderno tentando se virar nos trinta foi caricaturizado numa imagem ainda distante para os intelectuais há pelos menos uns vinte anos empregados nas faculdades de humanas, que quando se olhavam no espelho ainda não podiam vê-la refletida. Isso ainda antes da erosão galopante das humanas e das tentativas de extermínio dos cursos com menos procura. &#xA;&#xA;Ou não foi assim que foi lido o empreendedor de si? Esse pobre coitado, sem ajuda nenhuma de lado nenhum. Essa marionete do sistema, esse tonto, foi lido em grande parte ainda com o distanciamento do pensador aristotélico que, para pensar o mundo, só pode estar em grande medida apartado dele, na congregação acadêmica, de onde pensa participar do centro do pensamento sobre a vida contemporânea. Esse rendido, empurrado para o trabalho precário, assim como a acumulação primitiva forçou a criação do proletariado. Se tirar o teto, depois o de comer, você ganha um servo. O empreendedor de si, mesmo endividado e estafado, não tem outra escolha se não continuar produzindo, mesmo que nem saiba o que de fato ele produz e para quem.&#xA;&#xA;Mea culpa à parte, carrego sempre o embaraço de não ser muito capaz de estar nas coisas do mundo e ao mesmo tempo pensar o mundo, de não poder abraçá-lo sem reservas, de braços abertos. De ter me sentido muito confortável na congregação.&#xA;&#xA;Mas nos anos 1960 e 1970 para onde nos voltamos quando queremos falar da multidão potente, mesmo no tumulto das manifestações de Maio de 1968 na França e da eclosão de grupos como o Baader-Meinhof, na Alemanha na mesma época, antes e um pouco desses eventos, quando a filosofia ainda parecia encontrar uma pertinência no mundo prático, parecia ainda existir a ideia de mundos possíveis e um forma de poesia menos angustiada com o mundo, ou angustiada, mas de alguma forma apaixonada, e um certo grau de liberdade e experimentação, uma certa confiança nos possíveis e até no impossível. Não qualquer tipo de filosofia, mas a filosofia pós-moderna, que construiu os paradigmas e pilares da pós-modernidade, que revisou categorias anteriores da filosofia-política e dos estudos sobre a linguagem e os atos de fala, sobre a semiótica e os estudos culturais, a desmesura da arte e tudo mais. &#xA;&#xA;Da crítica à economia política nasceu a biopolítica, a necropolítica, as políticas da morte, do fazer-viver-deixar-morrer, e a mudança estrutural da esfera pública se deslocou para o ciberespaço, onde passou a viver seus anos mais solitários neste mar de imagens. E qualquer coisa que seja fruto do pensamento ocidental passou a ser colocado do avesso, decolonizado, confrontado. Uma verdadeira cruzada contra o ocidente sendo produzida no ocidente, desde o sul global e das epistemologias do sul.&#xA;&#xA;Uma guerra autoimune que tem levado, em alguns casos ainda desapercebidamente, muitos desses pensadores do contemporâneo, os estrangeiros deslocados, estrangeiros e deslocados, diasporizados ou ferrados no sul global a pedir colo pro colonizador. Ainda não chegam a se lançar ao mar dos refugiados, mas todos nós já beiramos a vida matável.&#xA;&#xA;E pra onde vão? Se ao cairmos (me permitam colocar no plural) neste vazio existencial aumentado pela vivência 24/7 dentro do computador, na pandemia, no niilismo produtivo do insone esgotado nas redes sociais, caímos sem bússola? &#xA;&#xA;Na guerra autoimune contra o ocidente, enquanto tentamos reparar os danos originais da colonização ou corremos para os braços do primeiro mundo que tiver interesse em nos aceitar, enquanto reparamos também o barco que afunda. No corpo-a-corpo com os dispositivos e sofrendo a precarização de tudo e do trabalho também, parece mesmo que apenas uma porcentagem muito mínima de nós se tornaria a Carola Rackete , que desviou o navio de resgate Sea-Watch 3, na ilha de Lampedusa na Itália, furando o bloqueio marítimo do navio de guerra Guardia di Finanza à entrada de 53 refugiados que estavam à deriva - ou o Eduard Snowden ou o Julian Assange. &#xA;&#xA;Ou então afundamos todos juntos deixando alguns muitos boiando em seus coletes salvavida, ou viramos a Carola Rackete? Ou abraça sua causa e vai, dando as mãos para a mão invisível de algum nicho de mercado, o labirinto do empreendedor de si. Foucault revirando nas tumbas. E o empreendedor de si, ocupado o tempo todo em ter boas ideias, colocá-las em prática, assumir os riscos, os gastos, postar nas redes, fazer as melhores fotos, encontrar uma estética da marca. Tudo isso sozinho e com ajuda da multidão? do conjunto de singularidades em processo de individuação psíquica?  &#xA;&#xA;[Será preciso fazer uma pausa gigantesca para falar minimamente sobre como e por que, o conceito de sujeito foi pras cucuias e a filosofia pós-moderna nos substituiu por singularidades e agora vemos um retorno às identidades. Voltarei a isso mais tarde].&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Parece que foi numa tentativa de responder perguntas semelhantes a estas que Paolo Virno resgatou o conceito de multidão. Retomando o que parece ter sido a principal querela do século XVI, teórico e prática, espelhada na formação do Estado Moderno na Europa e nas guerras, na lenta transição do poder soberano para um poder soft, que atingiu o seu ápice com a arte de governar dois séculos mais tarde e que produziu o Estado regulador da vida, urbanizador das cidades, melhorador dos níveis educacionais e de saúde. &#xA;&#xA;O surgimento do capitalismo coincidiu com este processo de escolha entre o conceito e a realidade de povo, em oposição ao de multidão. O povo, o uno, a massa governada, representante de uma ideia geral manifesta na eleição de seus porta-vozes, a sua grande e última vontade, e a multidão, um conjunto de singularidades. No século XVI, a multidão de desajustados, reativos ao poder, detentores de um jus resistentiae, que: &#xA;&#xA;  Dito direito, não significa banalmente legítima defesa, mas algo mais sutil e complexo. O “direito à defesa” consiste em fazer valer a prerrogativa de um indivíduo, ou de uma comunidade local, ou de uma corporação, contra o poder central, salvaguardando formas de vida já instaladas. Trata-se, portanto, de defender algo positivo: é uma violência conservadora (no bom sentido do termo). Talvez o jus resistentiae, o direito a defender qualquer coisa que esteja e seja digna de perdurar, seja o que mais aproxima a multidão do Seiscentos à multidão pós-fordista. Não se trata, porém, de “alcançar o poder”, de construir um novo Estado, um novo monopólio da decisão política, mas de defender as experiências plurais, as formas de democracia não- representativa, usos e costumes, não-estatais.&#xA;&#xA;  Paolo Virno&#xA;Gramática da Multidão, pg.19&#xA;&#xA;Qualquer semelhança com o agora não é mera coincidência. &#xA;&#xA;continua…&#xA;&#xA; Gabriel Tarde. A Opinião e as Massas (2005) https://psicologiasocialbasica.files.wordpress.com/2019/09/gabriel-tarde-o-publico-e-a-multidao.pdf&#xA;&#xA; Gramática da Multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas (2003) https://vocabpol.cristinaribas.org/wp-content/uploads/2014/04/Virno_Gramatica.pdf)&#xA;&#xA; A Capitão pela Justiça (ECOA, 11.01.2021) https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/causadores-carola-rackete/&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>21.3.2021</p>

<blockquote><p>Mas, evidentemente, não pude pretender, em algumas páginas, traçar o perfil de uma ciência assim [a ciência da conversação comparada]. Na falta de informações suficientes para até mesmo esboçá-la, só pude indicar seu futuro lugar, e ficaria contente se, tendo conseguido fazer sua ausência lamentável, eu sugerisse a algum jovem trabalhador o desejo de preencher essa grande lacuna.</p>

<p>Gabriel Tarde
A Opinião e as Massas, pg.3 [^1]</p></blockquote>



<p>As multidões recentes que tomaram as ruas nos Estados Unidos antes da eleição de Joe Biden, no Brasil de 2013 e no Brasil de agora, na Primavera Árabe, no Occupy Wall Street, no Haiti, nos aglomerados de QAnon, dos contra vacina, dos foda-se a vida, ao observá-las, eu procurava encontrar algo em comum e ao compará-las, identificar aquelas cuja ação resultaram em alguma mudança significativa, seja ela subjetiva, política ou rebordosa. E aquelas que mal deixaram rastro, saíram de cena. Paralelamente, observava a popularização de termos acadêmicos sendo usados como o último suspiro da palavra resistência. Micropolítica dos afetos no Big Brother Brasil. Teorias requentadas e tentativas renovadas de esclarecimento de que mundo é esse, que gente é essa? Brotam voltadas para si. Enquanto a guerra autoimune no ocidente expõe os ossos de uma sociedade emocionalmente frágil, uma sociedade sem adultos. A classe média evanescente tranquilizada com remédio psiquiátrico assiste os psicopatas no poder em todo lugar, e frustra o breque dos apps. pausa. Qual foi o encontro multitudinário que produziu mudanças reais no discurso e nas políticas econômicas? Permitam-me deixar por uns instantes a subjetividade de lado. Aceitei o desafio de Gabriel Tarde, lançado em Maio de 1901 de esboçar o que viria a ser uma ciência da conversação comparada. Com nenhuma pretensão de fazer ciência e mais como esforço de entender a força desagregadora da multidão, sobre o que falam os muitos, o que pensam, e como se contagiam mutuamente.</p>

<h2 id="a-gramática-da-multidão-anos-2000" id="a-gramática-da-multidão-anos-2000">A Gramática da Multidão: anos 2000</h2>

<p>Semelhante convocação fez Paolo Virno, em 2001, nos seminários que deu na Universidade da Calábria, onde era docente. Filósofo e semiólogo, foi preso em 1978, acusado de fazer parte das <em>Brigate Rosse</em> (Brigadas Vermelhas), organização paramilitar de guerrilha comunista na Itália e de outros movimentos de esquerda como <em>Autonomia Operaia</em>, dos quais Antonio Negri também fazia parte. No livro <em>Gramática da Multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas</em> [^2], Virno também incentivou filósofos e sociólogos a pesquisar a multidão, termo que se tornou mais conhecido com o lançamento, em 2004, do livro <em>Multidão: guerra e democracia na era do império</em>, escrito por Antonio Negri e Michael Hardt.</p>

<p>Multidão, no senso comum interpretado como sinônimo de <em>massa</em> ou de <em>povo</em>, fez aparição em momentos específicos do pensamento político da modernidade, em Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes e Baruch Espinoza, num arco temporal que abrange os séculos XV e XVII. No início dos anos 2000, o conceito de multidão foi resgatado e dali em diante passou a ser associado às teorias da pós-modernidade, do pós-fordismo e do capitalismo cognitivo. Há controvérsias sobre as origens da pós-modernidade, mas o pós-fordismo parece já mais consolidado, numa percepção mais ou menos academicamente fundamentada de que a sociedade industrial está em vertiginosa transformação desde a década de 1970. Não só em transformação, mas nos momentos finais do seu colapso, assim como a democracia esfacelada, esse fantasma, que cada vez mais acredita-se nem sequer ter um dia existido.</p>

<p>Embora reconhecesse o que chamou de o caráter ambivalente da multidão, diferente de Gabriel Tarde, Paolo Virno enxergou neste conceito algo mais prenhe de potencial transformador, mais como variante social alternativa. Em relação ao conceito hobbesiano de povo – o povo dominado, subjugado pelo poder do Estado –, a multidão foi vista com voto de confiança, não como esse “grupo amorfo”, de que falou Tarde, “incapaz, sob todas as suas formas, de pé ou sentada, imóvel ou em marcha, de estender-se além de um pequeno raio” e que desaparece “quando seus líderes cessam de tê-la <em>in manu</em>, quando ela deixa de ouvir a voz deles” (ver pg.13)</p>

<p>Virno, parecia acreditar (gostaria de saber o que ele pensa hoje) que a mera capacidade de pensar e de se comunicar fora dos <em>lugares especiais de fala</em> – o partido, a igreja –, trazendo ao primeiro plano os <em>lugares de fala comuns</em>, a partilha do pensamento, a vida da mente exposta e pública de forma muito natural e corriqueira, seria capaz de originar „uma esfera pública inédita, uma esfera pública não-Estatal, longe dos mitos e dos ritos da soberania“ (ver pg.17).</p>

<p>[Aviso de não confundir mente exposta, intelecto público ou intelecto geral, termos utilizados no livro – tomemos como exemplo a comunicação em redes sociais virtuais –, com o conceito de esfera pública. Um passo a frente seria interrogar também o que pode uma esfera pública? Voltarei a isso mais tarde].</p>

<p>Tenho a impressão de que ele não tinha tanto em mente a multidão cibernética e ainda não podia observar, na época em que pensava uma gramática da multidão – por uma questão mais de desenvolvimento tecnológico do que geracional –, sobre o que ela fala e como age. Pelo que de fato ela se interessa. Fake News, guerra híbrida, com certeza não existiam em seu espectro de análise, assim como parece ter dado pouca bola para a relação entre multidão e fascismo.</p>

<hr/>

<p>Nos meus anos de doutorado, o livro <em>Gramática da Multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas</em> me impressionou muito e até hoje me serve como uma grande bússola. E releio alguns trechos em busca de algo perdido. Mas por mais precisa que seja uma bússola em mostrar a direção a seguir, é preciso uma boa dose de intuição para se orientar. Mas quando você precisa a todo instante se reorientar, a bússola já não te serve tanto, você até toma algum caminho, mas parece sempre se encontrar no mesmo ponto. O que te resta é, portanto, só a intuição.</p>

<p>O que eu buscava e busco neste livro foi um elo entre teoria e prática, que nunca encontrei de fato. Ficou como uma ilusão de que seria possível para fora dos livros finalmente conectar teoria e prática, no mundo. E tendo a multidão como o grande agente da transformação – não a massa, não o povo. Mas, minto. Não é bem assim que nunca encontrei tal relação de modo palpável e visível. Tenho visto cada vez mais exemplos surgirem disto, que seria uma possível conexão, mas de uma maneira totalmente outra e muito semelhante ao que a vida no neoliberalismo nos apresenta, principalmente para os filhos dos anos 1980. Você faz um ou mais planos que seguem completamente outros, não se parecem em nada com o que foi planejado. Como se uma coisa não tivesse a ver com a outra: „planejo, portanto vai acontecer“, ou ainda: „estudei, logo terei um bom trabalho“. E todos os aspectos da vida a depender de um sistema de <em>créditos sociais</em>, o qual você deveria estar investindo desde que nasceu. Uma variação da teoria do capital humano.</p>

<p>É uma força que vem de fora, apertando uma outra que vem de dentro tentando se manifestar, enquanto uma outra que vem de cima e dos lados desvia o movimento de sair. Mas como aquilo que entra, sai, em algum momento sai enviesado, misturado. Já não é mais a sua energia interna, os seus desejos, somente, mas a contaminação dela com as outras forças, o fora com o dentro. Um movimento de adaptação inevitável.</p>

<p>Por um movimento semelhante, o elo teoria-prática retornou num outro conceito que falava da realidade através dos livros e a criticava. O homen pós-moderno tentando se virar nos trinta foi caricaturizado numa imagem ainda distante para os intelectuais há pelos menos uns vinte anos empregados nas faculdades de humanas, que quando se olhavam no espelho ainda não podiam vê-la refletida. Isso ainda antes da erosão galopante das humanas e das tentativas de extermínio dos cursos com menos procura.</p>

<p>Ou não foi assim que foi lido o <em>empreendedor de si</em>? Esse pobre coitado, sem ajuda nenhuma de lado nenhum. Essa marionete do sistema, esse tonto, foi lido em grande parte ainda com o distanciamento do pensador aristotélico que, para pensar o mundo, só pode estar em grande medida apartado dele, na congregação acadêmica, de onde pensa participar do centro do pensamento sobre a vida contemporânea. Esse rendido, empurrado para o trabalho precário, assim como a acumulação primitiva forçou a criação do proletariado. Se tirar o teto, depois o de comer, você ganha um servo. O empreendedor de si, mesmo endividado e estafado, não tem outra escolha se não continuar produzindo, mesmo que nem saiba o que de fato ele produz e para quem.</p>

<p>Mea culpa à parte, carrego sempre o embaraço de não ser muito capaz de estar nas coisas do mundo e ao mesmo tempo pensar o mundo, de não poder abraçá-lo sem reservas, de braços abertos. De ter me sentido muito confortável na congregação.</p>

<p>Mas nos anos 1960 e 1970 para onde nos voltamos quando queremos falar da multidão potente, mesmo no tumulto das manifestações de Maio de 1968 na França e da eclosão de grupos como o Baader-Meinhof, na Alemanha na mesma época, antes e um pouco desses eventos, quando a filosofia ainda parecia encontrar uma pertinência no mundo prático, parecia ainda existir a ideia de mundos possíveis e um forma de poesia menos angustiada com o mundo, ou angustiada, mas de alguma forma apaixonada, e um certo grau de liberdade e experimentação, uma certa confiança nos possíveis e até no impossível. Não qualquer tipo de filosofia, mas a filosofia pós-moderna, que construiu os paradigmas e pilares da pós-modernidade, que revisou categorias anteriores da filosofia-política e dos estudos sobre a linguagem e os atos de fala, sobre a semiótica e os estudos culturais, a desmesura da arte e tudo mais.</p>

<p>Da crítica à economia política nasceu a biopolítica, a necropolítica, as políticas da morte, do fazer-viver-deixar-morrer, e a mudança estrutural da esfera pública se deslocou para o ciberespaço, onde passou a viver seus anos mais solitários neste mar de imagens. E qualquer coisa que seja fruto do pensamento ocidental passou a ser colocado do avesso, decolonizado, confrontado. Uma verdadeira cruzada contra o ocidente sendo produzida no ocidente, desde o sul global e das epistemologias do sul.</p>

<p>Uma guerra autoimune que tem levado, em alguns casos ainda desapercebidamente, muitos desses pensadores do contemporâneo, os estrangeiros deslocados, estrangeiros e deslocados, diasporizados ou ferrados no sul global a pedir colo pro colonizador. Ainda não chegam a se lançar ao mar dos refugiados, mas todos nós já beiramos a vida matável.</p>

<p>E pra onde vão? Se ao cairmos (me permitam colocar no plural) neste vazio existencial aumentado pela vivência 24/7 dentro do computador, na pandemia, no niilismo produtivo do insone esgotado nas redes sociais, caímos sem bússola?</p>

<p>Na guerra autoimune contra o ocidente, enquanto tentamos reparar os danos originais da colonização ou corremos para os braços do primeiro mundo que tiver interesse em nos aceitar, enquanto reparamos também o barco que afunda. No corpo-a-corpo com os dispositivos e sofrendo a precarização de tudo e do trabalho também, parece mesmo que apenas uma porcentagem muito mínima de nós se tornaria a Carola Rackete [^3], que desviou o navio de resgate Sea-Watch 3, na ilha de Lampedusa na Itália, furando o bloqueio marítimo do navio de guerra <em>Guardia di Finanza</em> à entrada de 53 refugiados que estavam à deriva – ou o Eduard Snowden ou o Julian Assange.</p>

<p>Ou então afundamos todos juntos deixando alguns muitos boiando em seus coletes <em>salvavida</em>, ou viramos a Carola Rackete? Ou abraça sua causa e vai, dando as mãos para a mão invisível de algum nicho de mercado, o labirinto do empreendedor de si. Foucault revirando nas tumbas. E o empreendedor de si, ocupado o tempo todo em ter boas ideias, colocá-las em prática, assumir os riscos, os gastos, postar nas redes, fazer as melhores fotos, encontrar uma estética da marca. Tudo isso sozinho e com ajuda da multidão? do conjunto de singularidades em processo de individuação psíquica?</p>

<p>[Será preciso fazer uma pausa gigantesca para falar minimamente sobre como e por que, o conceito de sujeito foi pras cucuias e a filosofia pós-moderna nos substituiu por singularidades e agora vemos um retorno às identidades. Voltarei a isso mais tarde].</p>

<hr/>

<p>Parece que foi numa tentativa de responder perguntas semelhantes a estas que Paolo Virno resgatou o conceito de multidão. Retomando o que parece ter sido a principal querela do século XVI, teórico e prática, espelhada na formação do Estado Moderno na Europa e nas guerras, na lenta transição do poder soberano para um poder soft, que atingiu o seu ápice com a arte de governar dois séculos mais tarde e que produziu o Estado regulador da vida, urbanizador das cidades, melhorador dos níveis educacionais e de saúde.</p>

<p>O surgimento do capitalismo coincidiu com este processo de escolha entre o conceito e a realidade de povo, em oposição ao de multidão. O povo, o uno, a massa governada, representante de uma ideia geral manifesta na eleição de seus porta-vozes, a sua grande e última vontade, e a multidão, um conjunto de singularidades. No século XVI, a multidão de desajustados, reativos ao poder, detentores de um <em>jus resistentiae</em>, que:</p>

<blockquote><p>Dito direito, não significa banalmente legítima defesa, mas algo mais sutil e complexo. O “direito à defesa” consiste em fazer valer a prerrogativa de um indivíduo, ou de uma comunidade local, ou de uma corporação, contra o poder central, salvaguardando formas de vida já instaladas. Trata-se, portanto, de defender algo positivo: é uma violência conservadora (no bom sentido do termo). Talvez o <em>jus resistentiae</em>, o direito a defender qualquer coisa que esteja e seja digna de perdurar, seja o que mais aproxima a multidão do Seiscentos à multidão pós-fordista. Não se trata, porém, de “alcançar o poder”, de construir um novo Estado, um novo monopólio da decisão política, mas de defender as experiências plurais, as formas de democracia não- representativa, usos e costumes, não-estatais.</p>

<p>Paolo Virno
Gramática da Multidão, pg.19</p></blockquote>

<p>Qualquer semelhança com o agora não é mera coincidência.</p>

<p>continua…</p>

<p>[^1] Gabriel Tarde. A Opinião e as Massas (2005) <a href="https://psicologiasocialbasica.files.wordpress.com/2019/09/gabriel-tarde-o-publico-e-a-multidao.pdf">https://psicologiasocialbasica.files.wordpress.com/2019/09/gabriel-tarde-o-publico-e-a-multidao.pdf</a></p>

<p>[^2] Gramática da Multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas (2003) <a href="https://vocabpol.cristinaribas.org/wp-content/uploads/2014/04/Virno_Gramatica.pdf)">https://vocabpol.cristinaribas.org/wp-content/uploads/2014/04/Virno_Gramatica.pdf)</a></p>

<p>[^3] A Capitão pela Justiça (ECOA, 11.01.2021) <a href="https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/causadores-carola-rackete/">https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/causadores-carola-rackete/</a></p>
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      <pubDate>Wed, 17 Mar 2021 18:23:46 +0000</pubDate>
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